PELA CONSTRUÇÃO DE UMA EFETIVA ALTERNATIVA QUE DEFENDA OS INTERESSES DA CLASSE TRABALHADORA E DO POVO POBRE BRASILEIRO

Ângelo Balbino Soares Pereira

*Professor de Filosofia da SEE-DF. Atua na corrente sindical “Unidos pra Lutar” que constrói a CSP CONLUTAS. Militante da Revolução Socialista / PSOL

As eleições presidenciais colocam novamente diante da classe trabalhadora e dos setores populares uma disputa marcada pela polarização entre dois projetos burgueses distintos: de um lado, a extrema direita bolsonarista; de outro, a Frente Ampla encabeçada por Lula.

Não temos nenhuma dúvida sobre o caráter reacionário da extrema direita. O bolsonarismo representa uma ofensiva contra os direitos democráticos e sociais, fortalece o conservadorismo e procura ampliar sua influência sobre setores cada vez mais amplos da sociedade. A candidatura de Flávio Bolsonaro busca ocupar esse espaço e se fortalecer nacionalmente, dialogando com a frustração e o descontentamento de milhões de pessoas diante das promessas não cumpridas pelo governo Lula.

Mas reconhecer a gravidade representada pela extrema direita não significa aceitar que a única alternativa possível seja a submissão política ao governo neoliberal e à Frente Ampla lulista.É justamente essa escolha pelo “mal menor” que queremos subverter.

O PSOL ERRA AO RENUNCIAR A UMA CANDIDATURA PRÓPRIA

O PSOL deveria apresentar uma candidatura própria no primeiro turno e disputar politicamente as eleições com um programa independente, socialista e de enfrentamento aos interesses dos capitalistas.

No entanto, a direção majoritária do partido escolheu novamente se subordinar à Frente Ampla encabeçada pelo PT e Lula. O argumento de que seria necessário garantir um novo período democrático, fortalecer as instituições e somente depois pensar em outras batalhas econômicas e políticas expressa uma adaptação profunda ao programa da democracia burguesa e à política de conciliação de classes.

Como se fosse possível separar a defesa das liberdades democráticas da luta concreta contra a fome, a precarização, os baixos salários, o endividamento, o desmonte dos serviços públicos e todas as formas de exploração que pesam sobre a maioria da população.

A democracia que pretendem preservar é a democracia dos banqueiros, do agronegócio, das grandes empresas e dos mesmos setores que seguem lucrando enquanto milhões enfrentam condições cada vez mais difíceis de vida. É a mesma democracia das Polícias Militares e juízes que cotidianamente matam ou criminalizam jovens pobres e negros nas periferias de nosso país.

O primeiro turno deveria ser justamente o momento para apresentar um projeto político independente, ganhar consciências e demonstrar que existe uma alternativa tanto à extrema direita quanto à política de conciliação de classes da Frente Ampla lulista.

Ao renunciar a essa disputa, o PSOL desaparece como alternativa política própria diante das massas e aprofunda sua assimilação ao governo Lula. Por isso nós, como corrente interna crítica, sempre defendemos que o PSOL apresente candidatura própria e rompa todo compromisso político com o governo federal. Infelizmente, as correntes da esquerda do PSOL como MES, Fortalecer, APS, Alicerce, Ecossocialistas, e outras, decidiram seguir a linha política equivocada da direção majoritária.

LULA E A FRENTE AMPLA NÃO SÃO UMA BARREIRA REAL CONTRA A EXTREMA DIREITA

Existe uma diferença real entre o projeto da Frente Ampla e o projeto da extrema direita bolsonarista. Não se trata de igualar Lula a Bolsonaro, nem de negar os perigos que uma vitória da extrema direita representaria para a classe trabalhadora, as mulheres, a população negra, os povos originários, a população LGBT e os movimentos sociais.

Eles são projetos distintos e cumprem papéis distintos. A extrema direita representa uma ofensiva autoritária e reacionária, com o objetivo de atacar de forma mais voraz direitos democráticos, trabalhistas e sociais e fortalecer ainda mais os setores mais fascistas da sociedade. A Frente Ampla, por sua vez, procura administrar os interesses do capitalismo dentro dos marcos da democracia burguesa, combinando o discurso da conciliação de classes com políticas neoliberais e a preservação dos interesses fundamentais dos banqueiros, do agronegócio e dos grandes empresários em detrimento dos direitos e conquistas da maioria da população.

Mas é precisamente aqui que está o problema: essa política não elimina as condições que alimentam o crescimento da extrema direita.

Quando o governo mantém políticas de austeridade, limita os investimentos públicos e preserva os interesses do mercado financeiro, a vida da classe trabalhadora não melhora, pelo contrário, piora. Quando milhões continuam enfrentando baixos salários, precarização, endividamento e serviços públicos insuficientes, cresce também a frustração com aqueles que governam e apresentam falsas promessas de campanha.

E é nesse terreno que a extrema direita consegue avançar. Ela se apresenta falsamente como oposição ao sistema, tentando canalizar o descontentamento popular para um projeto ainda mais reacionário, autoritário e favorável aos interesses do capital.

A melhor forma de enfrentar esse avanço não é abandonar a disputa política e pedir antecipadamente votos para a Frente Ampla. É construir uma alternativa independente, capaz de disputar esse descontentamento com um programa que enfrente de verdade os responsáveis pela crise.

NÃO À SUBMISSÃO AO IMPERIALISMO!

A luta contra a extrema direita também exige uma política consequente de enfrentamento ao imperialismo.

Trump e o imperialismo norte-americano buscarão intervir e pressionar a situação política brasileira de acordo com seus interesses. O bolsonarismo, por sua vez, mantém relações políticas com a extrema direita internacional e procura fortalecer seus vínculos com figuras e governos reacionários em escala mundial. É necessário denunciar essa política e combater qualquer tentativa de intervenção imperialista no Brasil como defende a ultra direita e o bolsonarismo.

Mas também não podemos fechar os olhos para os limites da política do governo Lula. A manutenção de relações estreitas com o capital internacional e a disposição de negociar a exploração dos recursos estratégicos do país por grandes empresas demonstram que não existe uma ruptura com a dependência e a submissão aos interesses imperialistas. Fundamentalmente, manter relações com o Estado sionista, genocida, de Israel que comete todo tipo de brutalidade contra o povo Palestino atuando para o seu extermínio, é inaceitável.

Defendemos uma política independente, baseada na soberania dos povos e no enfrentamento aos interesses das grandes potências e das multinacionais. Somos anti-imperialistas e fundamentalmente anti-Trump. Por isso, diante a constante intervenção de presidente dos EUA, construir a mais ampla unidade na luta para enfrentar de verdade o monstro imperialista e defender a soberania como primeiro passo na luta por todos os direitos que os explorados e oprimidos ainda precisamos conquistar.

NO PRIMEIRO TURNO, É HORA DE FORTALECER A ESQUERDA INDEPENDENTE!

O primeiro turno e um eventual segundo turno não são a mesma situação política. No primeiro turno, está colocada a disputa entre dois programas e projetos políticos distintos, ambos vinculados a interesses capitalistas. É justamente nesse momento que se coloca a necessidade de apresentar uma alternativa própria para os trabalhadores e os setores populares que rejeitam a extrema direita, mas que também não se reconhecem na política de conciliação de classes da Frente Ampla. Antecipar o apoio eleitoral a Lula já no primeiro turno significa renunciar a essa disputa.

Nós defendemos que a esquerda independente esteja presente nas eleições com uma única candidatura e com um programa capaz de responder aos problemas sofridos pela maioria da população. Uma campanha unificada dos que não se limitam a escolher o “menos pior”, mas que coloque diante da sociedade outro projeto de país e outra perspectiva para a classe trabalhadora.

Infelizmente os partidos que poderiam representar esse projeto da esquerda independente, optaram em lançar candidaturas próprias, priorizando sua auto construção. Não questionamos o direito nem a legitimidade de cada organização apresentar sua própria candidatura. O que questionamos é a eficácia dessa escolha no atual momento histórico. Em meio à profunda crise do sistema capitalista, consolidou-se uma polarização política entre a extrema direita e a Frente Ampla. É justamente nesse cenário que a dispersão da esquerda revolucionária atua negativamente, debilitando sua capacidade de intervir na polarização e disputar a consciência das massas trabalhadoras e pobres.

Mesmo críticos à fragmentação, fazemos um chamado a votar pelas candidaturas da esquerda independente para a presidência, entre elas PSTU, UP e PCB, únicas candidaturas independentes de patrões e governos.

UMA CAMPANHA POR UM PROGRAMA SOCIALISTA

Defendemos um programa que parte das necessidades da classe trabalhadora e dos setores populares, e não dos limites impostos pelo mercado, pelos banqueiros ou pelo chamado equilíbrio fiscal. Um programa para enfrentar a precarização do trabalho, aumentar salários, combater o endividamento, defender e ampliar os serviços públicos, garantir moradia, educação e saúde de qualidade e enfrentar o poder econômico do agronegócio, dos bancos e das grandes empresas.

Um programa de ruptura com a austeridade e com a submissão aos interesses imperialistas, que coloque no centro a necessidade de que os trabalhadores e o povo pobre não paguem pela crise, e que aqueles que lucram com ela paguem a conta.

COM QUAL PROJETO POLÍTICO?

Nós construímos e defendemos um projeto de reagrupamento das forças revolucionárias porque a luta por um programa não pode ser separada da discussão sobre como construir uma força política capaz de lutar por ele.

O cenário atual da esquerda revolucionária brasileira é marcado pela fragmentação. Embora não vemos hoje, de maneira imediata, condições para um reagrupamento orgânico das organizações revolucionárias, não podemos abandonar essa perspectiva e militar por ela.

Ao contrário. É necessário colocar em debate a necessidade de superar a dispersão das forças revolucionárias, aproximar os setores que compartilham uma estratégia de independência de classe e construir, através da experiência comum e da luta política, caminhos para fortalecer uma alternativa revolucionária.

Aproveitemos este pleito eleitoral para defender não apenas o que é necessário mudar, mas também como construir uma força capaz de lutar por essas mudanças.

Texto-de-Conjuntura-Angelo-Balbino

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