Por que o Primeiro de Maio tem que ser Classista e de Luta?

Primeiramente, o Primeiro de Maio tem que ser momento de rememorar as/os lutadoras/es e as grandes batalhas que a classe trabalhadora, a classe-que-vive-do-trabalho[1], travou/trava contra as formas assumidas pelo sistema do capital (capitalistas/burgueses gerenciais, Estado burguês e trabalho hierárquico alienado). Também tem que se constituir em espaço de afirmação e construção de formas de organização da classe trabalhadora tendo em perspectiva sua emancipação e a defesa do socialismo.

Pela realização do Primeiro de Maio sem hegemonismo, oportunismo e autoritarismo

É inadmissível que a realização de Primeiro de Maio ocorra sob a égide de hegemonismo partidário, de oportunismo político e de práticas autoritárias, como pudemos presenciar em 2024, local e nacionalmente. Eventos políticos comemorativos marcados por controle político-partidário, pela defesa incondicional do Governo Lula-Alckmin e sua política de austeridade fiscal, palanque como espaço de lançamento de candidaturas a governos e câmaras municipais de determinados partidos e uso de seguranças para restringir o acesso da esquerda radical ao microfone. O que se desenrolou foi um processo que se encontra na contramão do que deve ser o Primeiro de Maio.

Na contraposição dessa perspectiva, compreendemos que o Primeiro de Maio tem que se constituir em espaço de desvendamento de contradições e conflitos em curso na conjuntura, pois na sua base se encontram as disputas entre capital e trabalho e entre capitais, isto é, a luta de classes que se desenvolve no presente.

Conjuntura internacional e nacional indicando a configuração do Primeiro de Maio

Em termos internacionais, sob contexto de crise capitalista internacional marcada pela superacumulação de capital produtivo e financeiro (com ultrapassagem da capacidade de demanda efetiva e de possibilidades de investimento) e consequente acirramento competitivo internacional, presenciamos aspectos como:

  1. aceleração da desagregação da ordem mundial (imperialista) criada no pós-Segunda Guerra (pelos países da Europa Ocidental, Japão, tendo os Estados Unidos à frente) e do unilateralismo que se seguiu ao fim da Guerra Fria e da União Soviética, abrindo espaços para uma ordem mundial multipolar e para a atual ascensão do nacional-imperialismo norte-americano e do continental imperialismo europeu;
  2. derrota da Otan no que pode ser a “primeira fase” da Guerra Russo-Ucraniana/Otan e preparação para a sua possível continuidade em nova fase, com a União Europeia e a Inglaterra à sua frente;
  3. aprofundamento da militarização/remilitarização de países, instabilidade político-militar regionais e conflitos armados (Burkina Faso, Iêmen, Mianmar, Nigéria, Rússia-Ucrânia/Otan, Síria, Somália, Sudão, genocídio em Gaza impetrado por Israel);
  4. ascensão de extremas direitas nacionalista/soberanistas e neoliberal/globalistas, marcadas por características que envolvem elementos autoritários, ultraconservadores e fascistas.

Em termos nacionais, sob a vigência em décadas da política de Estado aferrada à globalização, às políticas neoliberais e à política externa passiva, cujos resultados redundaram em aspectos como a edificação do padrão de acumulação financeirizado periférico brasileiro, a desindustrialização relativa da estrutura produtiva, a especialização na produção de commodities minerais e agropecuárias e a generalização de trabalho (formal e informal) precarizado, convivemos com aspectos como:

  1. perpetuação (desde 1999) da política macroeconômica caracterizada pelo tripé que articula um regime de metas de inflação, um regime de câmbio flutuante e o estabelecimento de metas de superávit fiscal primário;
  2. subordinação do país ao regime de austeridade fiscal (PEC-96/2016 e atual Arcabouço Fiscal/2023);
  3. vigência da política de juros altos, que reduz o crescimento econômico, expande a dívida pública e transfere a maior parte dos recursos do orçamento federal para o capital financeiro;
  4. continuidade do aumento dos preços de alimentos e geração de insegurança alimentar em grande parte da população;
  5. retirada/restrição de direitos sociais e trabalhistas, com generalização da precarização das condições de vida e de trabalho.

Trata-se de conjuntura (internacional e nacional) marcada por processos como os de recessão/inflação, de corte de gastos orçamentários vinculados a serviços sociais, de ampliação de gastos públicos com corrida armamentista e segurança pública, de acirramento de ressentimentos, ódios e de criação de bodes expiatórios, de multiplicação de guerras regionais, de ampliação da influência (política, ideológica e cultural) da extrema direita e de aprofundamento da crise ambiental.

Pela reorganização da classe trabalhadora!

Numa conjuntura marcada pela crise social, política, econômica e ideológica da ordem burguesa e pelo aprofundamento das contradições e conflitos dessa mesma ordem, é fundamental a compreensão de que os seus custos e suas consequências serão jogados nos ombros da classe trabalhadora. A resistência a qualquer forma que a coalizão burguesa assuma, demanda a reorganização classista da classe trabalhadora.

Essa reorganização requer como ponto de partida uma profunda investigação (classista) acerca das transformações em curso do capitalismo e na ordem burguesa. Investigação que deve redundar em um conjunto de orientações político-programáticas e organizativas demarcadas de toda e qualquer política de conciliação de classes.

A retomada e/ou direcionamento de entidades sindicais, orientadas com base nas referidas investigação e orientações, é imprescindível para fazer face ao cenário que envolve a nossa classe. Essa retomada/direcionamento deve ser acompanhada de um esforço organizativo que seja capaz de promover a articulação entre direção sindical sob orientação classista e de luta, criação de organização sindical de base para acumular em organização permanente do movimento social organizado e representação/mobilização da categoria representada em torno das pautas gerais e específicas.

Nesse processo, são fundamentais a condução de greves unificadas e a retomada das manifestações nas ruas e locais de trabalho, com vista à luta por direitos, melhores salários e condições dignas de trabalho. Concretamente, é imprescindível a mobilização nas campanhas salariais, a luta pela redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais sem redução salarial e pelo fim da escala 6×1, bem como a luta contra as políticas de austeridade fiscal, consonantes ao padrão de acumulação financeirizado periférico. Reorganização que também deve se estender e integrar movimentos populares organizados na luta por moradia, saúde, educação, transporte e reforma agrária e em defesa da agricultura familiar.

Tais processos devem culminar na realização de Encontros da Classe Trabalhadora orientados para a elaboração de programa da classe, a condução de lutas, campanhas, jornadas de luta por transformações estruturais na sociedade e a realização de greves gerais como lutas políticas voltadas para a conquista da iniciativa política por parte da nossa classe.

Construir o Primeiro de Maio classista e de luta contra a burguesia, o capital e a conciliação de classes é construí-lo como parte da organização e da luta por mais direitos para a classe trabalhadora urbana e rural, pelo apoio às demandas por serviços públicos universais e de qualidade, por salários, carreiras e condições dignas de trabalho, pelo direito ao emprego e à moradia, pela defesa da juventude preta e periférica, pelo direito à terra e à agricultura familiar e pela defesa das mulheres, LGBTs e de todo o povo oprimido.

Construir o Primeiro de Maio classista e de luta é também construí-lo como espaço de manifestação da classe-que-vive-do-trabalho e da juventude, em toda a sua diversidade social, política, ideológica e cultural, de forma efetivamente democrática e participativa. O Primeiro de Maio, em consonância com a emancipação classe e da juventude, passará necessariamente pela superação de todas as formas de hegemonismo, oportunismo e autoritarismo, que são formas derivadas do sistema do capital ainda fortemente presente no seio do próprio movimento social.

Portanto, o Sintef-GO defende a realização de um Primeiro de Maio que acumule na superação da conciliação de classes, na resistência aos ataques que a classe trabalhadora sofre cotidianamente e na aglutinação de forças para a necessária contraofensiva da nossa classe contra o sistema do capital.

Viva o Primeiro de Maio!

Pela Unidade e Emancipação da Classe Trabalhadora!

TRABALHADORAS/ES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

Sintef-GO, 25 de abril de 2025.

[1]Expressão utilizada por Ricardo Antunes, sociólogo do trabalho, na obra Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho (2002).

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